As Decisões Racionais e o Erro de Descartes

Paulo Borges
Consultor Gestão, Vendas & Marketing

Já todos ouvimos dizer que as decisões, quer sejam tomadas como consumidores ou na atividade empresarial, podem ser racionais ou emocionais. Pode pensar-se que tendemos a decidir ‘racionalmente’, quando estamos na nossa atividade profissional e que, em nome próprio, como consumidores, somos mais emocionais.

Mas será que na atividade profissional, somos completamente racionais nas decisões?

A neurologia há muito que nos deu a conhecer a dicotomia lado esquerdo/direito do cérebro, que nos ajuda a distinguir os comportamentos racionais dos emocionais. Esta dicotomia é normalmente usada para identificar perfis de pensamento lógico, matemático, analítico por comparação com outros, de pensamento mais criativo, artístico.

Ned Hermann, um conceituado investigador, e responsável por áreas do desempenho e produtividade na GE, nas décadas de 70 e 80 do século passado, aprofundou este estudo, tendo desenvolvido um modelo de análise, aplicado à atividade empresarial, baseado numa abordagem em quadrantes, que remete para uma influência múltipla, numa lógica de dominância num dos quadrantes, para justificar os nossos comportamentos e por essa via as decisões, questionando assim a dicotomia lado esquerdo/direito do cérebro.

Este modelo deu origem à criação dum instrumento; Brain Dominance Instrument, que se tornou genericamente aceite no mundo empresarial para associar perfis à melhor atividade/ocupação profissional. Este instrumento de análise, com a robustez estatística conferida pela amostra usada na GE, admite que cada profissional, não obstante ter uma forma dominante de pensar/atuar, com reflexo nas suas preferências, é influenciado simultaneamente, com maior ou menor profundidade, por diferentes ‘quadrantes’ do cérebro, no processo de decisão.

Mas é apenas o cérebro a comandar? Aquilo que decidimos é somente o que o nosso cérebro processa? Descartes defendia a “separação abissal entre o corpo e a mente” separando a “substância corporal com um funcionamento mecânico” da “substância mental sem dimensões e intangível”. O neurocientista português António Damásio, ao demonstrar (“O Erro de Descartes”) que a nossa mente não é indissociável da biologia do corpo, “a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro”, acrescenta uma nova dimensão para o entendimento das tomadas de decisão. Podemos estar perante perfis com padrões de personalidade semelhantes, que ainda assim, sobre uma mesma realidade, podem decidir distintamente porque incorporam o “resto do organismo e o meio ambiente físico e social”.

Por mais que possamos falar em decisões racionais, na realidade elas estão associadas à prevalência de argumentos cartesianos em detrimento de outros que, por muito que não sejam explícitos, estão sempre presentes, influenciados pelo que somos, com reflexo em diferentes emoções. Portanto como todas as nossas decisões, são resultado duma dualidade razão-emoção pode afirmar-se que não existem decisões 100% racionais.